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Nas últimas semanas, tornou-se comum encontrar papelarias esgotadas, supermercados com limite de número de carteiras por cliente e famílias a fazer quilómetros em busca de alguns pacotes adicionais. O fenómeno não se limita às crianças e há pais que se deixam entusiasmar mais do que os miúdos.
Neste Mundial há de tudo: mães em grupos exclusivos de colecionadores no WhatsApp, pais a trocar repetidos à hora de almoço, adolescentes a negociar cromos através das redes sociais. A febre explica-se pelas características que tornam este campeonato único na história do futebol. Pela primeira vez, a competição é alargada de 32 para 48 seleções, o que aumenta significativamente o número de jogadores e histórias representadas na coleção.
A componente emocional é difícil de ignorar: este será provavelmente o último campeonato do mundo de figuras que marcaram uma era, como Cristiano Ronaldo e Lionel Messi, protagonistas de uma rivalidade histórica. A possibilidade de ter estes cromos acrescenta uma dimensão simbólica à coleção, sentimental, mas também comercial.
Se os cromos revelam factos, a caderneta está envolta em especulações. Deverá valorizar? Muito ou pouco e em quantos anos? Vale como um todo ou são sobretudo os cromos ligados a grandes estrelas ou a jogadores que possam vir a tornar-se referências internacionais que vão dar lucro no futuro?
A esmagadora maioria das cadernetas dos mundiais de futebol não se transforma num investimento extraordinário. Mas há exceções. É na combinação de três factores que pode estar o ganho: raridade da edição; importância histórica do torneio; estado de conservação. E o Mundial de 2026 tem potencial em todas as dimensões.
Para começar, este é o primeiro Mundial com 48 seleções — e as controvérsias que as envolvem já estão a dar que falar. Em segundo, nunca é demais reforçar, o campeonato poderá ficar associado ao adeus definitivo de uma geração histórica liderada por Cristiano Ronaldo e Lionel Messi. A juntar a isto, esta poderá ser uma das últimas coleções produzidas pela Panini sob licença FIFA — a federação já anunciou que a partir de 2031 os direitos passarão para a Topps, empresa detida pela Fanatics, terminando uma parceria que dura há 55 anos.
A joia da coroa: México 1970
A primeira caderneta Panini oficial de um Mundial é a do México 1970. É também a mais procurada pelos colecionadores. Um exemplar completo (271 cromos), em perfeito estado de conservação e autografado por Pelé — o segundo maior goleador da história da seleção brasileira, com 77 golos em 92 jogos — foi vendido em 2017 por 12 mil euros num leilão da Catawiki, uma plataforma europeia de leilões online fundada nos Países Baixos em 2008 (que começou como um catálogo para colecionadores).
A caderneta foi apresentada como a mais cara alguma vez leiloada pela plataforma. Desde então, o mercado parece ter continuado a subir. Fontes especializadas em colecionismo mencionam vendas mais recentes de exemplares completos e em excelente estado por mais de 30 mil euros.
A caderneta do Mundial da Alemanha Ocidental de 1974 é outra das mais procuradas. Estimativas recentes do mercado especializado revelam que exemplares completos (383 cromos) e bem conservados podem valer entre oito mil e 12 mil euros.
A de 1978, do Mundial da Argentina, praticamente completa (396 dos 400 cromos) foi avaliada entre 230 e 460 euros, consoante o estado de conservação. As cadernetas dos mundiais dos EUA 1994 (explosão comercial do futebol global) e Alemanha 2006 (último Mundial pré-redes sociais) também são procuradas.
À partida, seria de esperar que a caderneta do México 1986 fosse uma das mais valiosas da história. Afinal, é o Mundial da "Mão de Deus" e de Maradona no seu melhor. Mas os preços variam muito. Uma coleção completa foi vendida recentemente em leilão por apenas 85 euros — apresentava vários defeitos, incluindo fita-cola na capa e anotações manuscritas. Em bom estado, contudo, pode ultrapassar os mil euros.
Mais do que na caderneta, o valor pode estar num único cromo. Em 2021, segundo a Reuters, um cromo de Maradona de 1979 foi vendido por quase 545 mil euros. Não era um cromo da Panini de um Mundial, mas mostra até onde pode chegar o mercado dos colecionáveis de futebol.
Há poucas semanas, um inglês completou a sua caderneta ao fim de 56 anos; só um dos cromos em falta custou-lhe cerca de 175 euros. A história é contada pelo jornal The Guardian: Stephen Butler, de 69 anos, começou a preencher a caderneta do Mundial de 1970, tinha então 13 anos. Há cinco anos, ao mudar de casa, encontrou no sótão uma série de recordações da adolescência — fotografias, cadernos escolares, o antigo boné da escola e, pelo meio, a caderneta Panini do Mundial do México.
Ao folheá-la, Stephen Butler percebeu que faltava apenas um autocolante para completar a colecção. Não era Pelé nem Bobby Charlton ou qualquer outra grande estrela, mas um cromo dedicado ao Chile, relacionado com o Mundial de 1962. O cromo foi comprado na internet e embora o colecionador reconheça que o preço foi elevado considera que a ocasião justifica a despesa.
Tudo aconteceu precisamente na semana em que a FIFA anunciou o fim da parceria com a Panini, uma coincidência que pode acrescentar ainda mais valor a esta caderneta em particular — apesar de o seu dono ter anunciado que não tem qualquer intenção de vender (recorda-se de acompanhar o Mundial de 1970 numa televisão a cores recém-comprada pela família, uma novidade para a época).
Cinquenta anos depois, o triplo do tamanho. E do custo
Ao contrário das edições modernas, produzidas à escala global e massiva, as cadernetas do Mundial de 1970 foram distribuídas em quantidades muito mais reduzidas, numa época em que não existiam dados públicos rigorosos sobre as tiragens totais.
A caderneta de 2026 está a ser impressa aos milhões e é alvo de enorme procura. Em 50 anos, a caderneta mais do que triplicou de tamanho, o que ajuda a explicar porque é hoje muito mais difícil e cara de completar: 48 seleções, 1.248 futebolistas inscritos, 980 cromos, dos quais 68 especiais.
Muitas pessoas compram a caderneta convencidas de que estão a fazer um investimento, mas a história sugere prudência. O cenário mais provável é que daqui a 20 anos, completa e em óptimo estado de conservação, valha mais do que hoje — talvez algumas centenas de euros, se o Mundial for memorável. Esperar que se transforme num ativo de milhares de euros pode ser demasiado optimista.
O potencial de valorização poderá estar noutro lado: as versões especiais, os cromos paralelos ultra-raros e eventuais edições limitadas associadas ao último ciclo da Panini antes da passagem da licença da FIFA para a Topps. Se estamos perante uma bolha de nostalgia ou a assistir a nova classe de colecionáveis desportivos, essa é uma pergunta a que o mercado ainda não respondeu.
O que é sabido é que quanto maior é a oferta inicial, mais difícil é a valorização futura. Completar a caderneta é possível, mas o custo depende do método. Simulações apontam para uma média de 1.061 carteiras para completar a colecção, ou seja, 1.591,5 €.
Alguns cromos são mais raros do que outros, com algumas nuances importantes. Os 980 cromos parecem ter probabilidades semelhantes de aparecer, mas a edição de 2026 introduziu vários níveis de raridade através da edição de diferentes versões: margens brancas; laranjas; azuis; encarnadas; roxas; verdes e pretas.
As versões pretas são as mais raras e existem em exemplares únicos (um de um). Além disso, há 68 cromos especiais; 12 cromos promocionais Coca-Cola; variantes metálicas e douradas.
Historicamente, os cromos mais desejados (e valiosos) tendem a ser: Messi; Cristiano Ronaldo; Mbappé; Yamal; jovens talentos que venham a tornar-se lendas. O exemplo mais impressionante vem do Mundial de 2022: um cromo paralelo único de Messi foi vendido por 120 mil euros. Não por ser mais raro, mas por se tratar de Lionel Messi, o craque argentino.
É por isso que os grupos de WhatsApp são tão importantes. Sem trocas, completar a caderneta pode custar uma pequena fortuna. Com trocas organizadas, o custo cai drasticamente (entre 150 e 300 euros). A diferença explica o aparecimento de mercados paralelos, encontros de troca, plataformas especializadas e aplicações de gestão de coleções.
De brinquedo a negócio
Em várias cidades, os eventos dedicados à troca de cromos estão a atrair centenas de participantes e a reproduzir uma tradição que parecia ameaçada pela digitalização. Num momento em que grande parte da vida social se deslocou para os ecrãs, a caderneta do Mundial está a criar comunidades físicas.
Este é um dos aspetos fascinantes: como um produto aparentemente simples gera um ecossistema próprio, económico e social. Quando uma coleção tem centenas de cromos, os repetidos tornam-se inevitáveis. À medida que a caderneta se aproxima do fim, cada novo pacote comprado tem uma probabilidade maior de conter cromos que o colecionador já tem. É aquilo a que os economistas chamam uma ineficiência de mercado: o comprador continua a gastar dinheiro, mas obtém cada vez menos valor útil.
É precisamente para resolver essa ineficiência que surgem os mercados paralelos. Em vez de gastar mais dinheiro em carteiras aleatórias, o problema resolve-se através da cooperação. No caso, grupos de WhatsApp, Facebook, Instagram, aplicações de gestão de coleções, feiras de troca regionais. Na Reddit, há pessoas com mais de 500 cromos repetidos a procurar trocas e encontros organizados em Nova Iorque, Berlim, Barcelona ou Amadora.
Aquilo que antes se fazia no recreio das escolas, atingiu hoje um patamar muito mais sofisticado. A tecnologia reduz radicalmente os chamados custos de procura. Já não é uma questão de sorte, mas sim de oportunidade. Paradoxalmente, o digital está a tornar mais eficiente uma atividade profundamente analógica.
Hoje, alguns colecionadores tornam-se intermediários informais, uma espécie de corretores: compram coleções incompletas, trocam grandes lotes, constroem bases de dados e conhecem os cromos mais difíceis de encontrar. Muitos acompanham cada Mundial como uma atividade semi-profissional e conseguem obter lucro.
Nem toda a escassez é real, e este é outro fenómeno interessante. Muitas vezes um cromo parece raro apenas porque existe um desequilíbrio temporário no mercado. Ao procurarem simultaneamente o mesmo jogador — por exemplo, Ronaldo ou Messi — cria-se uma sensação de raridade, a procura aumenta e o valor do cromo sobe. Para este mercado secundário, povoado de investidores-colecionadores, os cromos deixam de ser brinquedos e passam a ser valores como as obras de arte ou relógios de luxo.
São muitas e diversas as plataformas criadas exclusivamente para trocar cromos. Alguns exemplos são a StickerRadar, que afirma ter mais de dez mil colecionadores ativos e milhões de cromos registados, a Cromo26, que funciona quase como um Tinder dos cromos: identifica colecionadores próximos e propõe trocas, a MyCardSwap, que permite gerir simultaneamente cromos Panini e cartas Adrenalyn XL, ou a Faltan, que utiliza OCR (Reconhecimento Ótico de Carateres) para digitalizar os cromos e encontrar potenciais parceiros de troca.
A caderneta de cromos do Mundial 2026 gerou a sua própria infraestrutura social e talvez seja este o verdadeiro fenómeno. "Foi um êxito estrondoso que nos surpreendeu a todos", admite a Panini, que pede compreensão para as inúmeras faltas de stock nos pontos de venda dos 130 países onde a empresa distribui carteiras de cromos.
O sucesso trouxe também novos desafios. Entre eles, os "espertos" que falsificam cromos, uma forma de pirataria que a Panini já está a combater. "Temos uma equipa de advogados e detetives a investigar este problema, e mais do que um caso já foi parar aos tribunais", segundo o diretor geral de Panini España, Lluís Torrent. Quando começam a surgir falsificações, é sinal de que já existe dinheiro suficiente no sistema para tornar a fraude rentável.
Hoje, Portugal entra em campo pela primeira vez neste Mundial para defrontar a República Democrática do Congo — que participou na fase final de um Campeonato do Mundo apenas uma vez, em 1974, era ainda Zaire.
Durante 90 minutos (pelo menos), cromos da bola e colecionadores voltarão a ser aquilo que sempre foram: jogadores a tentar marcar o golo da vitória e claques a torcer pelos seus favoritos. Quando a competição chegar ao fim, ficará o futebol. Mas o mercado, esse continuará a jogar o seu próprio Mundial muito depois do apito final.
E quem sabe se uma jogada fenomenal não dará direito a honras de autocolante no Campeonato do Mundo de 2030, que será disputado em Espanha, Marrocos e Portugal.
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