Acompanhe toda a atualidade informativa em 24noticias.sapo.pt
Faltavam cerca de quinze minutos para as 16h00 quando chegou uma carrinha dos CTT à Escola Secundária Madeira Torres, na cidade de Torres Vedras. De lá de dentro saiu uma pequena caixa de cartão que deixou duas alunas e uma encarregada de educação de esperanças renovadas. "Será que são as notas dos exames?", questionaram imediatamente. Mas não eram.
Letícia e Maria estudam Gestão na ESCO - Escola de Serviços e Comércio do Oeste, uma escola profissional, e esperavam à sombra, no exterior da Madeira Torres, pelas notas tão aguardadas.
"Tem sido muito complicado, estamos muito ansiosas pelos resultados", começa por dizer Letícia ao 24notícias. Maria completa o raciocínio: "Podemos ter de nos inscrever na segunda fase e estamos dependentes de outras pessoas, não consigo compreender. Temos medo de não ter as informações no tempo certo, não gostamos de fazer as coisas nos últimos dias".
Por isso, quando viram a carrinha chegar, pensaram que ia finalmente acabar a espera. "Estamos aqui há uns 15 ou 20 minutos. Olhámos para o pacote e estávamos a comentar se estariam ali os papéis que queremos, não fossem evitar uma entrega tecnológica", diz Maria a sorrir.
Esperaram e acabaram por ir embora. Agora, voltam segunda-feira. Maria do Carmo, mãe da Letícia, diz que tirou o dia para acompanhar as duas jovens que esperam as notas para concorrer à universidade.
"Também estou ansiosa por elas. É complicado porque estamos ansiosos pelos resultados e não aparece nada. E hoje também vão ter o baile de finalistas e daqui a pouco têm de se aprontar", revela.
"Elas querem saber as notas, temos medo que isto comprometa o futuro. Querem ir para a faculdade e nós, pais, temos gosto que isso aconteça. Mas ninguém sabe de nada e perdemos o dia com outras coisas para fazer", conclui.
Junto à portaria da escola espera outro aluno, Santiago. Está menos ansioso porque ainda está no 11.º ano, mas mesmo assim aguarda as notas com expectativa.
"Sinto ansiedade por saber as notas e também para poder organizar-me e estudar para a segunda fase que vai ser já na quarta-feira. Estamos a receber as notas muito tarde para uma segunda fase muito próxima. Há um bocadinho de falta de responsabilidade de quem gera isto lá em cima; eu não tenho controlo sobre isso, portanto, o que resta é aguardar", evidencia.
Para o jovem, que diz acompanhar o tema essencialmente "pelos clipes curtos que colocam nas redes sociais", é difícil não haver acesso a mais informação. "Ficamos um bocado perdidos sobre quando é que saem mesmo as notas. O feedback que recebemos foi agora aqui da nossa auxiliar, a dizer que podemos receber as notas até às 23h59. Portanto, não há sequer uma hora exata".
Por isso, resta esperar. Santiago levou consigo Gabriel, um amigo ainda no 10.º ano, para suportar melhor a espera. Ora ficam à sombra, ora aproveitam para esticar as pernas frente ao estabelecimento de ensino. E até para quem não espera nada é um desespero. "Acho um bocadinho decepcionante as notas virem tão tarde e não haver informação sobre nada. A segunda fase está muito próxima, acho isso triste e penso como será comigo", nota Gabriel.
Apesar de não haver muita gente na rua, de vez em quanto surgem alunos e pais. Nenhum passa da portaria da escola. Não há nada para ver lá dentro nem ninguém com quem falar além da auxiliar que repete a mesma informação a todas as pessoas: ainda não há notas.
Fernando acompanha a filha à escola e não hesita nos comentários sobre a situação dos exames nacionais. "Além de ser uma grande trapalhada, o mais grave de tudo para mim foi uma boca autêntica do ministro em dizer que é uma irresponsabilidade dos pais tirarem férias nesta altura. Claro que toda a gente sabe que as férias são tiradas em janeiro e em fevereiro, não é?", começa por dizer.
"Já o ano passado houve problemas e pelos vistos agora não acautelaram e ainda há folhas que se perdem ou a culpa é da empresa de informática. Não testaram suficientemente, não souberam precaver as coisas como deve ser. E agora é o que se vê", finaliza.
Mais no centro de Torres Vedras, junto à Escola Secundária Henriques Nogueira, o ambiente é semelhante. Pais e alunos procuram saber se há notas, mas não se demoram muito. Na entrada, uma administrativa atende o telefone que toca sem cessar. Desde manhã que assim é. Há professores na entrada que vão encontrando os alunos, mas nenhum quer prestar declarações ao 24notícias sobre a situação vivida.
Não há nada a dizer para justificar "o caos". Como referia ao 24notícias presidente da Associação Nacional de Diretores de Agrupamentos e Escolas Públicas (ANDAEP), Filinto Lima, esta "é uma novela mexicana sem fim".
Salvador é um dos alunos de 12.º ano que procura respostas. "Vim ver se havia alguma informação relativamente aos exames. Dentro do grupo da minha turma, no WhatsApp, temos andado a falar uns com os outros e a partilhar as informações que fomos sabendo".
"Tudo isto vai ir atrasar o processo de candidatura à universidade. E, além disso, os governantes e as pessoas que continuam a afirmar que as notas saíam hoje estiveram a dar esperanças que não existem aos alunos. O diretor da escola já estava a dizer que há escolas em que as secretarias estão a fechar e sem a secretaria não há fixação de pautas — e que é o que vai acontecer aqui também", revela.
Apesar de tudo, garante que não se sente muito ansioso. "A minha parte foi feita por mim. Estudei, fiz o exame. O resto, há pessoas que devem ser encarregadas disso. Agora, é claro que dizerem-me uma coisa e não a cumprirem... as pessoas que fazem isso devem ter responsabilidades. A mim ensinaram-me que o que prometemos é para cumprir. E é para fazer, não é para ficar quieto", atira.
Além da incerteza com a chegada das notas, queixa-se da possibilidade de existiram falhas nas correções. "Não sei até que ponto é que tudo que lá está é meu. Se foi tudo corrigido na íntegra, se perderam folhas, se não perderam folhas. Portanto, até ver o meu exame não posso garantir que foi totalmente feito por mim".
Sandra, a mãe, nota que este é "um período de grande instabilidade psíquica para todos aqueles que estão a concorrer".
"Já vivi isso numa época em que era tudo muito mais linear. Eram três exames realizados, nós tínhamos de os fazer todos no mesmo ano, que era no 12º. E, portanto, o processo de ingresso era muito menos artificial, mais inteligente talvez. E, portanto, as coisas acabavam por correr melhor", começa por dizer ao 24notícias.
"Eu penso que o que se passa atualmente é muito disruptivo para todos aqueles que vão concorrer, para os miúdos, para os pais, para os próprios professores. Estão a ser alvo de grande pressão e a pressão não ajuda nunca a fazer um bom trabalho. Por isso, acho que com grande probabilidade vão existir erros. Vai existir grande incerteza em relação aos resultados que serão publicados. E, portanto, vai contribuir seguramente para muitos pedidos de reavaliação. Vai ser um ano extremamente complicado", acrescenta.
Sobre as notas que tardam a chegar, considera que todo o processo "descredibiliza completamente o sistema". "Efetivamente, houve uma coisa que falhou, que é terem a idoneidade de dizer 'nós não vamos conseguir'. Portanto, seria muito mais verdadeiro e mais justo para todos se alguém viesse e dissesse 'meus amigos, não vamos conseguir hoje, vão sair os resultados, mas não vão sair hoje'. Isto é enganar o próximo e não funciona", conclui.
De recordar que o ministro da Educação, Fernando Alexandre, garantiu esta manhã no Parlamento que já estão corrigidos todos os exames e que a responsabilidade de enviar as notas às escolas é do Júri Nacional de Exames (JNE).
Após o Conselho de Ministros, também o ministro da Presidência, António Leitão Amaro, afirmou que "o Júri Nacional de Exames e as escolas podem fazer hoje o que falta para publicar as notas".
Contudo, talvez não seja bem assim. Na Henriques Nogueira a informação dada ao 24notícias aponta para notas apenas na segunda-feira. Apesar de a escola permanecer aberta para aulas noturnas, os serviços estão encerrados e, às 18h50, ainda nada tinha chegado. Na Madeira Torres, os portões fechados já depois das 19h00 mostram que a espera continua.
___
A sua newsletter de sempre, agora ainda mais útil
Com o lançamento da nova marca de informação 24notícias, estamos a mudar a plataforma de newsletters, aproveitando para reforçar a informação que os leitores mais valorizam: a que lhes é útil, ajuda a tomar decisões e a entender o mundo.
Assine a nova newsletter do 24notícias aqui.
Comentários