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O Regresso do Tradicionalismo e a Ascensão da Direita Populista
Nas primeiras semanas dos ataques dos Estado Unidos e de Israel ao Irão, em 2026, a comunicação social norte-americana noticiou que a Rússia estava a fornecer informações ao governo iraniano sitiado. Em particular, o Wall Street Journal alegou que Moscovo contribuíra com imagens de satélite e tecnologia drone para ajudar o Irão a atingir equipamento e pessoal norte-americano.
Isto não deveria ter sido surpresa para ninguém. O Irão e a Rússia pertenciam a um conglomerado informal de nações que pretendiam minar o controlo do Ocidente sobre o mundo e dar início a uma nova era de multipolaridade — uma era em que os Estados Unidos, em particular, teriam de aceitar que havia outros países que também comandavam grandes partes do planeta.
Porém, em 2026, esta visão multipolar estava em perigo: o primeiro esforço para a levar a cabo, a invasão da Ucrânia por parte da Rússia, em 2022, entrava agora no quinto ano, com Moscovo a batalhar para alcançar os seus objetivos minimalistas no conflito.
Uma sublevação na Síria, apoiada pela Turquia, destronara Bashar al-Assad, depois de a Rússia ter gastado milhões e bombardeado multidões para o manter no poder. O presidente norte-americano, Donald Trump, raptara o líder venezuelano, Nicolás Maduro, forçando o restante governo a remodelar-se enquanto fornecedor de energia dos EUA, uma transformação que, por sua vez, vulnerabilizou o governo anti-Ocidente de Cuba.
Por outras palavras, a série de mísseis lançados pelos EUA e por Israel sobre Teerão afigurava-se apenas mais um passo numa estratégia para enfraquecer as aspirações da Rússia à influência global, atingindo, um por um, os seus parceiros menores. É uma banalidade presumir que a Rússia e os Estados Unidos eram adversários no Irão.
E, no entanto, era fácil passar ao lado do que dizia Washington na altura. Durante um jantar na Casa Branca, no dia 6 de março, menos de uma semana depois do início da guerra, Trump foi questionado a respeito do alegado apoio da Rússia ao Irão, o que o irritou, tendo-se ele limitado a dizer que se tratava de «uma pergunta estúpida». A 8 de março, o secretário da Defesa, Pete Hegseth, desconsiderou semelhantes perguntas, afirmando que «ninguém nos está a pôr em perigo». Durante uma entrevista de 10 de março com a CNBC, o enviado especial de Trump para Missões de Paz, Steve Witkoff, respondeu de forma ingénua, afirmando «que os russos disseram que não andaram a partilhar. (…)
Por isso, podemos sempre pôr em causa as suas palavras, mas eles, de facto, disseram isso.» Uns dias depois, Witkoff encontrar-se-ia com o seu homólogo russo em Miami, o qual terá alegadamente proposto que os russos cessariam de partilhar informações com o Irão caso os EUA parassem de apoiar a Ucrânia. Depois, no dia 13 de março, tendo sido confrontado uma vez mais por um jornalista que lhe perguntou se a Rússia estava a ajudar o Irão, Trump admitiu de forma relutante que Moscovo «pode estar a ajudá-los um pouco. Sim, talvez.»
O comentário revelava justamente o quão relutante o presidente e a sua administração estavam em falar da Rússia e de Vladimir Putin enquanto inimigos. Mesmo quando as ações de Moscovo bastavam para os condenar, o instinto de Trump era, pelo contrário, defendê-los, suavizar a situação, enganar e relativizar em seu nome. Reservava a sua ira para os aliados europeus dos EUA.
Há quem especule que a simpatia instintiva de Trump pela Rússia advenha da sua psicologia pessoal, que admira e inveja Putin, o homem forte e ditatorial dos seus sonhos. Porém, isso obscurece um facto acerca da direita radical norte-americana, neste caso, que a sua elite acalenta explicitamente uma visão que implicará reformar a politica internacional, uma visão onde a Rússia e os Estados Unidos se tornarão aliados contra um inimigo maior. E, com efeito, esta agenda extravasou para a comunicação social.
A 17 de março, o Politico citou um responsável da Casa Branca que afirmou que a administração Trump aspirava a «aproximar-se mais da Rússia» a fim de criar «um equilíbrio de poder diferente com a China».
Este foi um de muitos episódios onde as ideias e os eventos descritos no meu livro encontraram um eco no futuro. A Aliança Invisível é um relato das minhas observações e entrevistas aos ideólogos que lideram a direita radical, neste caso, a Steve Bannon, nos Estados Unidos, a Aleksandr Dugin, na Rússia, e ao brasileiro Olavo de Carvalho, entretanto já falecido. Nele descobri que estes homens — intelectuais que trabalham para políticos como Donald Trump, Vladimir Putin e Jair Bolsonaro — partilhavam um aspeto incomum. Todos se identificavam com uma radical e obscura escola filosófico-religiosa chamada Tradicionalismo.
E, quando ainda os acompanhava, também eles entre si começaram a estabelecer contacto, tentando coordenar-se através das raízes espirituais e intelectuais que os uniam.
Como explico no livro, o Tradicionalismo é uma forma concentrada de pensamento antimoderno e antiliberal, negando a cada passo valores que as pessoas consideram autoevidentes em sociedades democráticas. De uma forma mais geral, é também um meio para procurar explicações esotéricas. O Tradicionalismo alega ter conhecimento de como o mundo deveria ser e das forças que o moldam.
Para vos dar uma ideia deste esoterismo, considere-se novamente a relação política entre os EUA e a Rússia. Embora possam existir muitas formas de justificar uma aliança entre os dois Estados, os protagonistas deste livro sugerem que se considere a Rússia e os Estados Unidos não como sistemas políticos, económicos ou militares, mas como comunidades culturais e espirituais.
Para Bannon, em particular, os dois eram essencialmente povos cristãos, e essa ligação era mais importante do que o facto de a Rússia ser ou não ser democratica ou capitalista.
Pensar desta forma resulta numa política externa mais abrangente, uma nova forma de dividir o mundo e de encontrar fundamentos para parcerias internacionais. Uma aliança de base espiritual liderada pelos EUA a par da Rússia poderia vir a incluir a Europa ocidental, a ponto destes ideólogos considerarem democracias seculares e multiétnicas, como a França ou o Reino Unido, como cristãs. Porém, semelhante aliança apressar-se-ia também a recrutar nações cristãs que alegadamente se modernizaram menos e, por conseguinte, retêm a sua essência espiritual: os países orgulhosamente nacionalistas da Europa Central e do Leste, e mesmo algumas partes da América Latina.
A política doméstica também sofreria alterações. Por que razão haveríamos de proteger, por exemplo, as instituições e os valores democráticos do nosso país se consideramos que são fenómenos efémeros e acreditamos que a identidade do nosso povo reside na sua religião?
Aliança Invisível conta a história de como estas ideias surgiram e de como foram utilizadas por ideólogos de elite. É também um retrato do seu tempo, elaborado durante os meus anos de pesquisa no terreno, entre 2018 e 2020. Em retrospetiva, este período talvez não se afigure um momento de charneira na nossa história política. Tem lugar antes dos motins, das reeleições e das guerras que parecem definir os anos seguintes. No entanto, 2018-2020 foi uma altura de recalibração e de consolidação para os populistas da direita, uma altura em que os idealistas pensavam em formas de dar uso ao poder político que haviam conseguido recentemente e que estava em crescimento. O choque da eleição de Trump em 2016 já passara, e o caos do seu estilo de gestão tornava-se cada vez mais evidente. Isto significava que aquilo que estava a acontecer nos EUA seguia um caminho que fora trilhado na Europa, onde a população empurrara figuras inexperientes e impreparadas para posições de poder. Nessa altura, os adversários otimistas da direita radical ainda tinham esperança de que a manifesta incompetência da liderança da direita fizesse com que a vaga populista global se afigurasse uma anomalia singular — uma pausa no liberalismo progressista, antes de este prosseguir a sua marcha.
Sabemos agora, contudo, que quem continuaria a exercer a sua influência seriam os reacionários e não os liberais. As provas que temos disso hoje não vêm tanto das vitórias da direita populista sobre a esquerda progressista, mas do facto de o populismo autoritário estar a substituir a direita centrista e liberal em muitos países democráticos. O que ficou claro nos anos que se seguiram foi que o populismo se estava a tornar uma coisa fixa, e não uma moda, por vezes ganhando, outras perdendo, mas nunca desaparecendo.
Se outrora as batalhas políticas se centravam em debates sobre taxas de impostos e a distribuição da riqueza, agora focam-se na imigração, na religião, na aplicação da lei, na integridade das comunidades e no papel e autoridade do Estado.
Todavia, o sucesso político não traz necessariamente um propósito claro, e é nesse ponto que as figuras centrais deste livro desempenharam um papel histórico. Esforçaram-se por dar um propósito, até fornecer uma causa metafísica mais profunda, à vaga populista de direita. Tinham bastante trabalho pela frente, uma vez que o populismo, na sua essência, não diz respeito a nenhuma questão nem a uma posição política particular — alguns académicos vão ao ponto de argumentar que nem sequer está suficientemente bem definido para se lhe poder chamar uma ideologia. É, porém, uma história distinta. Conta ao público democrático que a sua sociedade consiste essencialmente em duas forças, um sistema e um povo. A oposição entre os dois é de índole usurária, com o sistema a governar um povo com o qual nem simpatiza nem se identifica. A causa populista nasce para corrigir a injustiça, transcendendo a rede de intermediários e de burocracias, com vista a mobilizar o povo, a pôr um ponto final na sua expropriação e devolver-lhe o poder. A natureza irreconciliável do conflito entre estes dois campos significa que o populismo tem de ser revolucionário e não gradual e disposto a fazer cedências, e a natureza corrupta do sistema (a comunicação social, o governo, o sistema educativo, etc.) significa que terão de ser quebradas regras formais e informais para que a revolução se possa materializar.
Daí o valor de um líder que tem sucesso por via dos misteriosos e intratáveis poderes do carisma.
Embora conste em movimentos populistas por toda a parte, o que é digno de nota é a quantidade de coisas que este guião deixa por dizer. Este enredo não precisa de clarificar quem é o povo, como é definido, como está a ser sitiado, porque é tão mau o sistema e como será uma boa vida depois de concluída a revolução.
Os movimentos em si podem também fornecer apenas respostas parciais a estas perguntas — o suficiente, por exemplo, para levar a que se rotule a causa de direita, mas talvez não o suficiente para se poder considerá-la propriamente ideológica.
Aquilo que parece ter atraído os nossos protagonistas para o populismo foi um vazio. No seu entender, o populismo era algo ideologicamente «aberto» e não um falhanço atrofiado — algo sem compromissos, indefinido, vago, e talvez por isso cheio de potencial e possibilidades.
Pelo menos, essa foi a melhor explicação que encontrei para a profunda contradição que permeia o meu texto: as extremas diferenças sociais, culturais e espirituais entre os ideólogos d’A Aliança Invisível e os líderes e os movimentos políticos que eles apoiam.
Steve Bannon, Alexandr Dugin e Olavo de Carvalho são intelectuais, consumidores insaciáveis de textos e de ideias. Além disso, o retrato que deles faço pinta-os como excêntricos religiosos, quebrando tabus fundamentalistas e procurando conhecimento de uma forma que se assemelha mais ao que há numa livraria metafísica do que, por exemplo, ao que se passa numa grande igreja evangélica. O hedonismo das suas vidas pessoais pode ser uma encarnação paralela da sua desconsideração pela convenção em questões espirituais.
Nada disto descreve Donald Trump, Vladimir Putin, Jair Bolsonaro, nem os seus apoiantes de base. Parece absurdo entreter a ideia de que estes líderes ou o mainstream populista alguma vez viessem a cruzar-se com o Tradicionalismo e com a sua bibliografia, quanto mais apreciá-la e identificarem-se com ela. Porém, os ideólogos que sigo imaginam que as campanhas populistas são passíveis de múltiplas interpretações e que o entendimento esotérico que delas se possa ter pode muito bem permanecer privado.
Trazem em si o sentido mais profundo, essencial e verdadeiro do significado histórico do momento, e este sentido pode estar confinado àqueles que estão munidos dos meios conceptuais para o compreender. Como me disse, Bannon considera-se o pensador e Trump o fazedor.
Uma razão para não aderir por completo a esta interpretação é que o esoterismo e o Tradicionalismo constituem apenas uma de muitas fações ideológicas divergentes dentro do populismo. Devido à natureza indefinida do povo e do sistema — ou à grandeza do slogan Make America Great [Tornar a América Grande] —, surgiram múltiplos empreendedores e pensadores de vária espécie para preencher a lacuna. Enquanto causa «anti», concebida mais para destruir um inimigo do que para governar, impõe poucos limites aos valores e ideais que os seus apoiantes podem defender.
Assim, nas suas fileiras encontram-se libertários, conservadores religiosos, e mesmo, como se tornou claro em 2024, tecnocratas e futuristas cuja mundividência e entendimento da história são quase diametralmente opostos aos do Tradicionalismo.
Uma vez mais, podemos chamar a isto caos ideológico ou vitalidade ideológica. Eu inclino-me para a última, mais não seja porque nos obriga a levar a sério a criação ideológica e cultural que lavra nos movimentos populistas contemporâneos. Argumentaria eu que tem sido principalmente a direita, e não a esquerda, quem tem reimaginado a política numa época em que nos disseram que semelhantes exercícios haviam deixado de ser possíveis desde o fim da Guerra Fria e a vitória do liberalismo, numa época em que não havia mais nada a pensar, só planos para implementar. Ignoramos essa energia criativa por nossa conta e risco.
A tendência do populismo para a novidade, ainda que esta se limite a importar ideias antigas para uma engenharia social e um aparelho estatal modernos, tem muito para nos ensinar acerca da sua vitalidade cultural e potencial disruptivo na política, muito mais do que sobre o seu conforto, familiaridades, redundâncias e previsibilidades.
No entanto, os anos que se seguiram à publicação d’Aliança Invisível não trouxeram senão um sofrimento extremo para os três protagonistas do livro. Steve Bannon viria a ser alvo de várias investigações judiciais. A primeira, por fraude, prender-se-ia com o muro de financiamento privado que foi construído ao longo da fronteira entre os EUA e o México (ver capítulo 21). Trump, provavelmente para dar uma lição de humildade a Bannon, atrasou a sua decisão de lhe conceder um indulto. A 19 de janeiro de 2021, a menos de quatro horas do fim da sua presidência, a equipa de Bannon aguardava com ansiedade. O seu principal assistente enviou-me a seguinte mensagem: «Não sei. Estamos só à espera e a rezar.» Duas horas depois, chegou a notícia de que Trump emitira o perdão.
Todavia, o presidente não seria capaz de proteger Bannon de futuras ameaças. Uma investigação, conduzida pelo Congresso dos EUA, a respeito da invasão do Capitólio no dia 6 de janeiro de 2021, identificou Bannon como mediador informal entre figuras importantes que haviam organizado os protestos. Além disso, alegavam que os comentários de Bannon no seu podcast indicavam que ele tinha conhecimento do que viria a acontecer. Segundo uma citação sua que consta no relatório: «Não acontecerá como vocês acham que acontecerá. Será extraordinariamente diferente. Só vos digo isto: apertem os cintos.»
Por conseguinte, o comité da investigação chamou Bannon para testemunhar, e quando ele recusou, o comité tomou uma medida algo invulgar e acusou-o de contumácia. Por isto, Bannon foi condenado a 22 de julho de 2022 e sentenciado a quatro meses de prisão. Estes meses foram certamente desagradáveis para si, mas eu sabia que ele aproveitaria a situação da melhor forma.
Bannon é social, extrovertido e — à sua própria maneira — encantador. Disse-me que dera aulas aos seus colegas presidiários. Quando o libertaram, retomou o seu então influente podcast enquanto mártir que lutara contra o Estado pela causa de Trump. Desde esse espalhafato, porém, dei por mim a desconfiar de que, na verdade, Bannon estaria finalmente a perder relevância. Havia muito que as pessoas diziam isso a seu respeito, e sempre tinham estado erradas: o poder dos contactos de Bannon e o seu talento para descobrir tendências societais incipientes de relevo tinham vindo a garantir-lhe um lugar nas principais conversas, públicas e privadas. No entanto, de 2023 em diante, vendo-se em dificuldades para contrariar o apoio de Trump ao republicano convencional e conservador Mike Johnson, líder da Câmara dos Representantes — e em 2025-2026 aos ataques de Trump contra o Irão —, parecia que quem estava no poder já não lhe dava ouvidos.
Do mesmo modo, os seus protestos não conseguiram impedir uma invasão de líderes tecnocratas, com Elon Musk à cabeça, no movimento e na Casa Branca de Trump.
Algo que Bannon identificara cedo fora o surto de coronavírus em 2020. Constituíra mesmo o tema principal do seu podcast nas primeiras semanas do ano, quando muitas pessoas — a comunicação social mainstream e especialmente a direita populista —ainda negavam ou hesitavam em reconhecer a seriedade da disseminação da doença. Numa chamada de janeiro desse mesmo ano, disse-me: «Pá, esta merda… É melhor começar a pensar onde é que porá o seu dinheiro e onde é que viverá.»
Olavo não ficou tão impressionado com o vírus. Nos seus próprios meios de comunicação e nos dos outros, descreveu a pandemia como um embuste. Neste aspeto, estava alinhado com o governo de Bolsonaro. Num primeiro momento, a liderança em Brasília resistira a apelos de urgência relativamente ao surto.
Embora viessem a adquirir uma vacina chinesa para o país, que enfrentava um número cada vez maior de casos fatais, o Conselho de Ministros de Bolsonaro adotou todo o tipo de teorias da conspiração em torno do vírus e defendeu tratamentos duvidosos, como a hidroxicloroquina.
Olavo teria encaixado na perfeição nas reuniões do Concelho de Ministros de Bolsonaro. Houve até quem o culpasse, na comunicação social brasileira, pela lentidão da resposta do governo à pandemia. No entanto, o seu alinhamento com o executivo era cada vez mais reduzido. Em 2019, como descrevo no livro, Olavo já criticava o papel dos líderes militares na administração de Bolsonaro. Pouco depois, a sua agenda profundamente anti-China começou a perder admiradores em Brasília. O momento definidor aconteceu em 2021, quando o ministro dos Negócios Estrangeiros, Ernesto Araújo, adepto do Tradicionalismo e seguidor de Olavo, se demitiu sob pressão, alegadamente por estar a complicar as relações económicas do país com Pequim. Nesse mesmo ano, Olavo denunciava o próprio Bolsonaro como fraco e «cobarde» por não ser capaz de tomar uma posição contra os inimigos internos e externos. Dadas as verrinosas invetivas que Olavo famosamente aplicara a quase toda a gente com quem contactara, a sua crítica ao presidente parecia respeitosa.
Olavo continuou a deparar com turbulência e afastamentos, o que viria a moldar as suas interações comigo também. Eu, e este livro em particular, fomos alvo dos seus comentários públicos entre 2020 e 2021. Em publicações nas redes sociais, no Facebook e no Twitter, e em longos monólogos publicados no YouTube, Olavo criticou os meus relatos e a minha interpretação da sua vida que consta neste texto. Condenou o subtítulo de uma versão em língua inglesa do livro («Inside Bannon’s Far-Right Circle of Global Power Brokers» [Dentro do círculo de extrema-direita de mediadores de poder globais]), porque sugeria que ele era seguidor de alguém; recontou a história da sua vida como eu a contara; acrescentou uma história interessante que não partilhara comigo e que dizia respeito a umas personagens secundárias da sua biografia; chamou-me um «conas» e muitos outros nomes.
Contudo, no decurso de tudo isto, não disputou um único facto do texto. Olavo morreu a 24 de janeiro de 2022 num hospital em Richmond, no estado da Virginia. Tinha alegadamente sido vitima do coronavírus nove dias antes. Não viveria para ver Bolsonaro perder para o seu rival de esquerda, Luiz Inácio Lula da Silva, no final desse ano. Não viveria para ver a invasão da capital do Brasil em 2023 (inspirada na que tivera lugar em Washington dois anos antes). E não participará nas eleições de 2026, nas quais Lula defrontará o filho de Jair Bolsonaro, Flávio. Em 2019, Olavo providenciara a paixão necessária para criar um movimento em torno da causa da direita, por outras palavras, fora o Jesus do Paulo de Bolsonaro.
Talvez, desta feita, a campanha seja toda cabeça e zero coração. Não conheço nenhuma figura no Brasil que venha a compensar a falta do estilo interessante de comentariado que era próprio de Olavo e do seu conservadorismo radical.
No entanto, 2022 reservou o pior tormento para Dugin. Em fevereiro desse ano concretizou-se um dos seus sonhos de longa data — uma invasão geral da Ucrânia por parte da Rússia. À semelhança do ataque da Rússia sobre a Geórgia, atacar a Ucrânia e subjugar a sua liderança ao controlo de Moscovo era, aos olhos de Dugin, um passo necessário que a Rússia tinha de tomar para cumprir o seu destino metafísico de negar ao liberalismo ocidental a universalidade a que aspira, para forçar a ideologia sem fronteiras a vergar-se a uma fronteira.
Todavia, não foi capaz de manter a violência da Ucrânia à distância.
A filha de Dugin, Daria Dugina, também era uma proeminente defensora online do conflito, tendo mesmo chegado a dirigir-se às linhas da frente para gravar vídeos a dar conta dos acontecimentos. Nomeadamente, no final do verão, gravou um vídeo a partir do interior da fundição Azovstal, que fora o local de uma batalha importante que dera à Rússia o controlo da cidade de Mariupol.
No entanto, no dia 20 de agosto, de novo em Moscovo, à saída com o pai de um festival de arte popular nacionalista chamado «Tradição», a oeste da cidade, uma bomba explodiu no carro de Daria, incendiando o veículo e arrancando o tejadilho. Não tardaram a surgir vídeos online que mostravam um Dugin à volta do local da explosão, junto aos restos mortais da sua filha, à espera de que os paramédicos ou a polícia chegassem.
Dada a visível destruição do carro, o corpo de Daria parecia estranhamente composto no funeral de caixão aberto, dias mais
tarde.
Presumivelmente, tratara-se de obra da Ucrânia, e pode dar-se o caso de eles terem querido atingir tanto a filha como o pai. Claro
que isto devastara Dugin, que parecia encontrar algum consolo nos tributos de soldados, líderes culturais e do próprio Putin, que retratou Daria como uma mártir da causa russa. Putin escrevera-lhe uma eulogia, onde a descrevia como uma mulher com «um verdadeiro coração russo», vítima de um «crime vil e cruel».
O ataque endureceu o compromisso de Dugin com a guerra e alimentou a sua reputação. Contudo, não se pode dizer que o russo regressara ao mundo com otimismo, tendo condenado a política externa de Donald Trump e as suas intervenções militares em 2025 e 2026, afirmando que se enganara no passado ao depositar a sua esperança no presidente norte-americano. E com a invasão da Ucrânia essencialmente congelada aquém dos objetivos de Putin (para não falar nos de Dugin), nada na política global
parecia correr a seu favor. Nada até o Irão ter demonstrado resiliência perante a invasão de 2026 por parte dos EUA e de Israel.
Por outras palavras, as personagens desta história encaminham-se para a tragédia. Mas, e quanto às suas ideias? Qual é o legado do seu populismo de inflexão Tradicionalista? É uma questão pertinente porque eu acho que o livro que estão prestes a ler é fundamentalmente sobre pensar, embora à primeira vista pareça ser sobre geopolítica e drama pessoal.
Aferir o legado destas ideias é difícil. Contudo, passo a sugerir algumas formas de o fazer. Primeiro, podemos dizer que, se o mundo em que vivemos hoje tem mais fronteiras do que antes, tal constitui uma marca de sucesso da vertente de Tradicionalismo aqui retratada. Fronteiras de todos os tipos — qualquer divisão que nos impeça de tratar as pessoas como se fossem todas iguais.
Outra medida que poderíamos considerar seria qualquer forma de desinvestimento em instituições modernas. Com isto, refiro-me especialmente ao afastamento da educação formal, à rejeição da medicina convencional, ao evitar da comunicação social mainstream, e por aí em diante. Podemos até esticar o conceito de forma que abranja qualquer tipo de desinvestimento em narrativas de progresso moderno. Por fim, estas figuras regozijar-se-iam também, e considerariam cumpridas a sua agenda e as suas previsões, se testemunhassem a desrracionalização do nosso mundo. Novamente, isto pode referir-se à rejeição da ciência moderna universal ou à rejeição de uma engenharia social com base em dados.
Quando aplico estes critérios aos últimos anos, obtenho um retorno misto. Por um lado, parece que as instituições oficiais do mundo — os nossos Estados, as organizações internacionais, os nossos média e as instituições educacionais bem estabelecidos
— estão todas em declínio. Hoje, atores como Trump ou Putin rompem fronteiras na qualidade de indivíduos ou tribos com interesses próprios, o que contribui para uma patologia mais profunda de desvinculação, de um desligar de experiências, rituais e convicções partilhadas, de fontes de informação partilhadas, de uma introversão no sentido das nossas próprias peculiaridades.
Não o fazem em nome dos direitos humanos universais ou da lei internacional. Por outro lado, poderíamos dizer que, ao passo que num plano está a acontecer uma desintegração do mundo que é agradável ao populismo Tradicionalista, noutro está a ter
lugar uma integração em massa. A tecnologia está a padronizar as nossas vidas. A participação é praticamente obrigatória. Por meio das nossas ações mostramos reconhecer a existência de um poder maior, embora não chamemos a esse poder Deus. Chamamos-lhe inteligência artificial.
Uma nova transcendência, uma mente que se descreve a si própria como largamente superior às mentes humanas e que tem
origem não no Estado, na Igreja ou na tribo, mas numa máquina.
Isto soa mais a um pesadelo do que a um sonho às pessoas que estamos prestes a conhecer. Embora talvez signifique que a sua luta possa continuar.
B. T., março de 2026
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