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"A minha turma foi a primeira, quando a escola abriu em 1986". Isabel Amaral tinha acabado de completar o 12º ano de escolaridade quando ouviu, "já não se lembra onde, porque na altura não havia internet", que o Fundo Social Europeu ia financiar dois cursos, um de jardinagem e um de calçada.

"Inscrevi-me juntamente com uma amiga minha e outro amigo meu, que hoje em dia é um dos encarregados de calceteiros na Câmara de Lisboa", conta ao 24notícias. "O meu objetivo era entrar para a Câmara porque, há 40 anos, a Câmara era um lugar seguro, um emprego para a vida".

Durante décadas, aprender jardinagem ou calcetaria na Escolas da Câmara Municipal de Lisboa significou muito mais do que aprender uma profissão. Para muitos, foi uma porta de entrada para a vida adulta, para um emprego estável e para um saber-fazer que hoje continua a desenhar a identidade da cidade.

Ao longo de quatro décadas, estas escolas formaram gerações de trabalhadores responsáveis por preservar uma herança funcional, estética e cultural. Mais do que espaços de ensino técnico, tornaram-se lugares de transmissão entre gerações, onde o conhecimento se aprende com as mãos, com a observação e com a prática diária.

Isabel Amaral
Isabel Amaral créditos: Meiline Silva | MadreMedia

Durante um ano, os formandos dividiam-se entre aulas teóricas e práticas na Quinta Conde de Arcos, onde Isabel recorda hoje o tempo que aqui passou, e nos jardins da cidade. Aprendiam os nomes em latim das espécies, construíam jardins de raiz e percorriam diferentes espaços verdes municipais para conhecer técnicas e métodos de trabalho.

"Aquilo foi quase como uma faculdade", recorda Isabel. "Ainda hoje mantenho amizades desse tempo". Amizades, e não só. Foi também aqui, durante o curso de jardinagem, que Isabel conheceu o marido.

Entre os principais ensinamentos que guarda desses meses de formação, destaca sobretudo o espírito de camaradagem criado entre os alunos.

"Éramos quase todos da mesma faixa etária. Aproveitávamos para aprender, mas também para conviver e divertirmo-nos", recorda.

No final do curso, muitos dos alunos integraram os quadros da Câmara Municipal de Lisboa. Isabel foi colocada no Parque Eduardo VII, um dos maiores espaços verdes da cidade. Embora mais tarde tenha seguido outros caminhos profissionais dentro da autarquia, recorda com carinho o tempo que trabalhou enquanto jardineira, e admite que nunca se desligou verdadeiramente da jardinagem.

"O bichinho ficou cá sempre".

Uma segunda vida na calçada

Mas nem todos chegaram a estas escolas ainda jovens. Se para muitos a formação representou uma primeira oportunidade profissional, para outros significou um recomeço.

Vítor Graça chegou à Escola de Calceteiros já depois dos 45 anos, numa altura em que procurava mudar de vida. Antes disso, foi empresário noutra área e chegou mesmo a emigrar para a Holanda, onde viveu durante seis anos.

"Comecei a perceber que a vida de emigrante não era fácil", conta. Foi durante esse período que começou a interessar-se pela calcetaria. Lia sobre o ofício, observava o potencial da profissão e acreditava que poderia existir ali uma oportunidade num setor onde faltavam profissionais.

Vítor Graça
Vítor Graça créditos: Meiline Silva | MadreMedia

Quando regressou a Portugal, procurou formação e acabou por entrar num curso associado à Junta de Freguesia de São Domingos de Benfica, que decorria na Escola de Calceteiros. Mas, a entrada não foi imediata.

"Disseram-me que já tinha o 9.º ano e que talvez não pudesse entrar, mas como não havia alunos suficientes acabaram por me aceitar para aprender a parte prática", conta.

Ao contrário de muitos colegas, garante que chegou ali com um objetivo muito claro. "Para ser sincero, acho que eu era o único que queria ser calceteiro", confessa.

"Assim da minha idade, éramos uns 25% e o resto era tudo mais jovem. Agora, quererem ser calceteiros é que ninguém queria. Queriam era aproveitar o nono ano".

A escola recebe adultos desempregados e jovens à procura do primeiro emprego através de cursos de educação e formação nas áreas da calçada e da jardinagem, em articulação com o Centro de Emprego. Em alguns casos, os cursos permitem obter dupla certificação — escolar e profissional — o que leva muitos formandos a procurar equivalências académicas, como o 9.º ano.

Além da formação de longa duração, a escola promove também cursos profissionais, workshops gratuitos, oficinas abertas, visitas orientadas, peddy papers e estágios, procurando aproximar diferentes públicos.

O interesse rapidamente se transformou em paixão pelo ofício. “Queria aprender a profissão, queria aprender a arte”, diz. Depois vieram os desenhos, as técnicas e o contacto diário com a pedra. "Bebi a água daqui", brinca. Terminou o curso em 2015 e nunca mais largou a profissão: "Já não me vejo a fazer outra coisa".

Profissões à procura de sucessores

Apesar de histórias como a de Vítor, atrair novos profissionais continua a ser um dos principais desafios da área. A necessidade de renovar gerações esteve, aliás, na origem da criação da Escola de Calceteiros, há quatro décadas, e continua a marcar o trabalho desenvolvido atualmente.

Nuno Serra, formador da escola, admite que a dificuldade em captar jovens resulta de vários fatores. "A calçada artística portuguesa é uma profissão muito dura", afirma. "Não tanto pela complexidade técnica, mas pelas exigências físicas que implica".

O trabalho é realizado ao ar livre, sujeito às condições climatéricas, e exige um esforço físico considerável. A isso junta-se aquilo que considera ser uma valorização insuficiente da profissão. "Não está suficientemente valorizada, e obviamente que o aspeto remuneratório é fundamental,", sublinha.

Nuno Serra
Nuno Serra créditos: Meiline Silva | MadreMedia

A análise é partilhada por quem vive a profissão no terreno. Para Vítor, a questão remuneratória tem sido uma dificuldade transversal tanto na calcetaria como na jardinagem.

"Já são profissões difíceis devido à parte física. Além disso, são muito mal remuneradas. Claro que as pessoas procuram outros caminhos. Se queremos manter uma coisa, que é um património, devíamos investir mais e criar condições para que as pessoas gostem de trabalhar", afirma. Na sua opinião, esta realidade afasta potenciais candidatos e ajuda a explicar a escassez de profissionais. "Há concursos abertos em todas as juntas de freguesia e câmaras municipais à procura de calceteiros. Não aparecem".

Ao longo dos anos, as equipas foram-se reduzindo e as funções acumulando. Se antigamente existiam diferentes especializações dentro da mesma frente de trabalho, hoje o calceteiro acaba muitas vezes por assegurar sozinho tarefas que antes eram distribuídas por várias pessoas.

"O calceteiro descarrega o material, prepara o terreno, faz a calçada e acaba o trabalho todo. É duro", resume Vítor.

Apesar disso, acredita que existem formas de tornar a profissão mais apelativa para as novas gerações. Uma delas passa por valorizar a componente artística da calçada portuguesa, frequentemente esquecida no dia a dia de manutenção das ruas.

"Quando estou a fazer a calçada, ou a tapar buracos pela cidade, a malta nem olha. Às vezes até dão pontapés nas pedras. Só não pisam as mãos de uma pessoa porque não calha. Agora, se estou a fazer um desenho, a malta pára. Perguntam, observam, querem saber como se faz", conta.

Vítor Graça
Vítor Graça créditos: Meiline Silva | MadreMedia

É precisamente nessa dimensão criativa que reside parte do potencial para atrair novos profissionais. Ao longo dos anos, Vítor tem procurado introduzir letras, padrões e outros elementos decorativos nos trabalhos que executa. "Sou eu que proponho fazê-los. Caso contrário, passo os dias a tapar buracos. Uma pessoa também vai perdendo o jeito".

Também na jardinagem, o trabalho diário sempre implicou esforço físico, exposição às condições climatéricas e jornadas passadas ao ar livre. Isabel Amaral recorda bem os primeiros anos de trabalho depois de concluir o curso. Colocada no Parque Eduardo VII, passava os dias entre jardins, canteiros e sistemas de rega espalhados por algumas das zonas mais emblemáticas da cidade.

Uma das memórias mais vivas transporta-a para os canteiros do Marquês de Pombal, onde existiam roseiras em toda a envolvente. "No verão era um calor abrasador. Ao final do dia o cabelo parecia estopa por causa da poluição", conta.

O desgaste físico era constante. Isabel lembra-se de transportar mangueiras pesadas, percorrer grandes distâncias e assegurar trabalhos de manutenção em diferentes espaços verdes da cidade.

"Chegava a carregar oito mangueiras de 50 metros. Fiquei com algumas mazelas e as minhas colegas também, sobretudo problemas de ombros e coluna".

Além do Parque Eduardo VII, as equipas asseguravam a manutenção de espaços como a Praça de Espanha ou o Campo Pequeno. Na época, a maioria dos jardins municipais era ainda cuidada diretamente pelos serviços da Câmara Municipal de Lisboa. A criação da Escola de Jardinagem surgiu precisamente num momento em que muitos dos trabalhadores mais antigos se aproximavam do fim da carreira. As primeiras turmas ajudaram a garantir essa renovação geracional, assegurando a continuidade do conhecimento acumulado por décadas de trabalho nos jardins da cidade.

Se na juventude via sobretudo o esforço físico e as longas jornadas ao ar livre, hoje olha para esse período de forma diferente. "Dou muito mais valor agora do que dava na altura, porque era jovem", admite.

A passagem dos anos permitiu-lhe perceber a dimensão do seu contributo. Sempre que regressa ao Parque Eduardo VII, não evita um exercício de memória. "Ainda hoje há arbustos plantados por mim. Sei que fiz parte daquilo de alguma maneira".

É uma marca discreta, quase invisível para quem atravessa diariamente aqueles espaços, mas que ajuda a contar uma parte da história dos jardins de Lisboa. Tal como acontece com os calceteiros que deixam desenhos gravados na pedra, também os jardineiros deixam a sua assinatura espalhada pela cidade, ainda que muitas vezes sob a forma de uma árvore que cresceu, de um canteiro que floresceu ou de um arbusto que resistiu ao passar dos anos.

Isabel Amaral
Isabel Amaral créditos: Meiline Silva | MadreMedia

Curiosamente, depois de uma carreira que a levou para funções mais ligadas ao trabalho de escritório, Isabel admite que hoje trocaria facilmente o computador pelo trabalho ao ar livre: "Não me importava nada de voltar".

O bichinho da jardinagem

Quarenta anos depois, Isabel continua a recordar com nitidez o primeiro dia que passou na escola. "É daquelas imagens que guardo para o resto da vida", conta.

Na memória permanecem os almoços junto ao lago, as conversas nos intervalos e o ambiente familiar que caracterizava a escola nos primeiros anos de funcionamento. Os espaços eram partilhados por diferentes turmas e o convívio fazia parte do quotidiano.

O primeiro contacto com a formação aconteceu numa das salas que ainda hoje recebe novos alunos. Foi aí que conheceu os formadores e começou a familiarizar-se com ferramentas e técnicas. Apesar de não ter chegado à escola com uma vocação definida para a jardinagem, rapidamente se deixou conquistar pelo ambiente da Quinta Conde de Arcos.

"Parecia que estávamos no campo, mas dentro da cidade", recorda.

Entre aulas práticas, técnicas de plantação, enxertias, envasamentos e construção de jardins, nasceu um interesse que acabaria por permanecer muito para lá do período de formação. O que começou como uma oportunidade profissional transformou-se numa ligação duradoura à jardinagem, que ainda hoje mantém.

A experiência de Isabel não é exceção. Para muitos dos que passam pela escola, o interesse pela jardinagem surge apenas depois do contacto direto com a profissão.
João Paulo do Carmo, formador da Escola de Jardinagem, acredita que essa é uma das particularidades da área. Numa época em que muitos jovens privilegiam percursos ligados à tecnologia ou a profissões mais associadas ao trabalho de escritório, as áreas técnicas e práticas enfrentam maiores dificuldades em captar novos candidatos.

Ainda assim, considera que a jardinagem tem uma capacidade rara de conquistar quem lhe dá uma oportunidade. Muitas pessoas chegam sem uma vocação definida e acabam por descobrir um gosto que se prolonga durante décadas.

"Depois de conhecerem a área, o gosto acaba por aparecer", observa.

O fenómeno repete-se frequentemente entre antigos alunos que, mesmo depois de concluírem a formação ou de seguirem outros percursos profissionais, continuam ligados à jardinagem. Alguns mantêm jardins próprios, outros prestam serviços a clientes privados e muitos continuam a trabalhar na área já depois da idade da reforma.

"É muito comum vermos jardineiros com 70 ou 75 anos ainda a trabalhar, mesmo estando reformados", diz.

Património construído à mão

O impacto destas escolas ultrapassa largamente o percurso dos seus alunos. Ao longo de quatro décadas, os profissionais formados nestes espaços ajudaram a moldar alguns dos elementos mais reconhecíveis da paisagem lisboeta.
Para o formador da Escola de Calceteiros, Nuno Serra, é impossível pensar na identidade da cidade sem olhar para os jardins e para a calçada portuguesa.

"Lisboa sempre teve jardins e espaços verdes. Mudaram os tempos, mudaram as formas de os desenhar e manter, mas eles sempre fizeram parte da cidade", explica.

Nuno Serra
Nuno Serra créditos: Meiline Silva | MadreMedia

O mesmo acontece com a calçada portuguesa, cuja história se cruza com a própria evolução do espaço urbano lisboeta. Mais do que coexistirem, jardins e calçada cresceram lado a lado ao longo dos séculos.

"Andaram sempre de mãos dadas", resume.

Nos jardins existiam caminhos, pavimentos e caleiras construídos em calçada portuguesa. Em redor, ruas e praças eram igualmente desenhadas com a mesma técnica. À medida que Lisboa se expandia, também estes dois elementos se consolidavam como marcas visuais da cidade.

Preservar estes elementos da identidade lisboeta significa também garantir que o conhecimento associado à sua construção não desaparece. Apesar das transformações tecnológicas que chegaram à formação profissional e ao próprio trabalho municipal, Nuno Serra considera que existe uma característica da calçada portuguesa que não pode ser sacrificada.

"O mais importante é não perder a essência da calçada artística portuguesa enquanto pavimento de pedra natural executado através de processos 100% artesanais", afirma.

Para o formador, é precisamente essa dimensão manual que distingue a calçada portuguesa num mundo cada vez mais marcado pela automatização, pela mecanização e pela inteligência artificial.

"Não pode perder o seu caráter artesanal e artístico", assume.

Há concursos abertos em todas as juntas de freguesia e câmaras municipais à procura de calceteiros. Não aparecem.

O primeiro trabalho de calçada artística portuguesa tal como hoje é conhecida remonta a 1842 e foi executado no interior do Castelo de São Jorge. A obra terá sido coordenada pelo tenente-general Eusébio Cândido Cordeiro Furtado, recorrendo a mão-de-obra dos presidiários que então se encontravam detidos no castelo.

Quase dois séculos depois, os princípios fundamentais mantêm-se surpreendentemente semelhantes. A pedra continua a ser trabalhada manualmente e os materiais utilizados permanecem de origem nacional, desde as matérias-primas até às ferramentas empregues pelos profissionais.

Mas há também uma dimensão mais pessoal, muitas vezes invisível aos olhos de quem passa. Entre os calceteiros existe uma tradição conhecida como a "assinatura do calceteiro": pequenas composições feitas com pedras colocadas discretamente no pavimento para deixar um cunho individual na obra.

Assinatura na calçada
Assinatura na calçada créditos: Meiline Silva | MadreMedia

Pode ser uma flor, uma estrela, uma cruz, uma letra, um pássaro ou um simples desenho. Pequenos sinais que identificam quem ali trabalhou e que funcionam como uma marca silenciosa deixada na cidade.

À procura dos símbolos escondidos

Essa dimensão artística também atrai perfis inesperados para a Escola de Calceteiros.
Entre os atuais formandos está Rui Rosa, doutorando da Universidade de Lisboa e arquiteto de formação. Natural do Rio de Janeiro, chegou a Portugal para desenvolver investigação académica, mas encontrou na escola uma forma de aprofundar o contacto com a matéria-prima do seu objeto de estudo.

O interesse pela calçada portuguesa nasceu ainda durante o curso de Arquitetura, quando começou a observar a presença desta técnica no espaço urbano carioca.

"É um encantamento que tenho desde a universidade", explica.

Rui Rosa
Rui Rosa créditos: Meiline Silva | MadreMedia

A sua investigação de doutoramento centra-se nos símbolos adinkra — um conjunto de símbolos tradicionais originários da África Ocidental — e nas possíveis semelhanças visuais com alguns dos padrões geométricos presentes na calçada portuguesa, tanto em Lisboa como no Rio de Janeiro.

Trata-se de uma pesquisa ainda numa fase exploratória, mas que parte de uma constatação simples: apesar de contextos históricos e culturais distintos, existem elementos gráficos que parecem dialogar entre si.

"Venho em busca destes encontros visuais", observa, embora sublinhe que ainda é cedo para estabelecer relações definitivas, uma vez que ainda está numa fase "embrionária".

Foi essa curiosidade que o levou a procurar a formação prática. Depois de anos a estudar desenhos, símbolos e espaço urbano, decidiu experimentar diretamente a técnica que dá forma a muitos desses padrões.

A experiência prática tem correspondido às expectativas, ainda que lhe tenha permitido perceber melhor as exigências da profissão.

"É uma atividade muito bonita, mas também muito árdua", resume.

O contacto diário com a pedra reforçou uma conclusão a que já tinha chegado enquanto investigador: a calçada portuguesa é amplamente reconhecida enquanto património cultural, mas esse reconhecimento nem sempre se estende a quem a constrói.

"A calçada tem um valor cultural imenso, mas não se dá o valor adequado ao calceteiro, que é o artista", afirma.

A observação cruza-se com uma preocupação repetida ao longo das conversas. Formadores e profissionais apontam a exigência física do trabalho, a falta de reconhecimento social e as condições remuneratórias como alguns dos principais obstáculos à renovação geracional do setor.

Paradoxalmente, aquilo que mais distingue a calçada portuguesa — o seu caráter artesanal e artístico — é também aquilo que depende da continuidade destes profissionais. Sem calceteiros, não há desenhos. Sem transmissão de conhecimento, não há técnica. E sem novas gerações dispostas a aprender o ofício, torna-se mais difícil preservar um património que faz parte da imagem de Lisboa há quase dois séculos.

O reconhecimento que tarda

Apesar de reconhecer o peso histórico e simbólico da calçada portuguesa, Vítor admite que os profissionais que a constroem continuam longe do reconhecimento que se atribui ao próprio património.

"Nós sabemos que desempenhamos um papel importante, mas a visibilidade sobre aquilo que fazemos é quase nula", afirma.

A contradição é evidente: a calçada portuguesa é um dos elementos mais fotografados e reconhecidos de Lisboa, mas os profissionais responsáveis pela sua manutenção permanecem praticamente invisíveis para a maioria das pessoas.

Desenho feito na calçada
Desenho feito na calçada créditos: Meiline Silva | MadreMedia

Ao longo das últimas décadas, acrescenta, a falta de investimento e a escassez de mão-de-obra contribuíram para a degradação de muitos pavimentos. Com poucos calceteiros disponíveis, tornou-se mais difícil acompanhar o desgaste natural da pedra e garantir a conservação dos desenhos que marcam ruas, largos e praças.

"Temos ruas lindíssimas, praças lindíssimas", sublinha. "Podíamos fazer mil e uma coisas para embelezar as nossas cidades. Mas, a calçada andou ao abandono uma série de anos".

Nos últimos anos, a valorização da calçada portuguesa entrou também na agenda política e institucional, com a criação de associações, grupos de trabalho e até a instituição de um dia nacional dedicado ao calceteiro.

Para Vítor, essas iniciativas representam um reconhecimento importante, mas ainda distante do quotidiano da profissão.

"Entretanto apareceu a Associação da Calçada Portuguesa", conta. "Pensámos que agora é que ia haver apoio, que íamos fazer projetos giríssimos. Porque nós temos tudo: matéria-prima, mão de obra… temos tudo".

Entre anúncios e expectativas, destaca-se a criação do Dia do Calceteiro, a 22 de julho, aprovado pela Assembleia da República, e as recomendações para a valorização da calçada portuguesa enquanto património cultural imaterial, incluindo o apoio à candidatura a Património da Humanidade da UNESCO.

Podíamos fazer mil e uma coisas para embelezar as nossas cidades. Mas, a calçada andou ao abandono uma série de anos.

Também o Governo anunciou a criação de um grupo de trabalho dedicado à valorização da profissão e da própria calçada portuguesa, com a missão de estudar o setor e propor medidas de salvaguarda e sustentabilidade.

Vítor reconhece a importância destes passos, mas deixa uma nota crítica sobre a forma como os profissionais são envolvidos nestes processos. "Fomos lá à Assembleia da República nesse dia", recorda. "Mas depois pergunto: porque é que quando se fazem estas reuniões não é convidado um representante das escolas?"

Para que nunca acabe

As comemorações dos 40 anos das Escolas de Jardinagem e de Calceteiros são mais do que uma celebração de uma data simbólica. São também uma oportunidade para refletir sobre o papel que a formação técnica especializada continua a desempenhar na construção da cidade.

O programa comemorativo, que se prolonga até ao primeiro trimestre de 2027, inclui exposições, visitas, oficinas abertas ao público e momentos de partilha de testemunhos. As iniciativas pretendem aproximar a comunidade de profissões que muitas vezes passam despercebidas, mas cujo trabalho está presente no quotidiano de todos.

Por trás das comemorações, permanece uma preocupação partilhada por alunos, antigos alunos e formadores: garantir que estes ofícios continuam a ter futuro.

Isabel Amaral e Vítor Graça
Isabel Amaral e Vítor Graça créditos: Meiline Silva | MadreMedia

"Temos de gostar do que é nosso. Da nossa história, da nossa cultura, do nosso património. E fazer com que nunca acabe", defende Vítor.

Mas gostar, sozinho, não chega. Ao longo das conversas, repetiram-se os mesmos desafios: o desgaste físico das profissões, a falta de reconhecimento, a escassez de profissionais e condições salariais pouco atrativas.

A calçada tem um valor cultural imenso, mas não se dá o valor adequado ao calceteiro, que é o artista.

Também Isabel Amaral observa com preocupação a forma como estas profissões são hoje encaradas pelas novas gerações. Se a jardinagem ganhou espaço enquanto atividade de lazer ou elemento valorizado nos projetos de arquitetura paisagista, considera que o trabalho quotidiano de manutenção dos espaços públicos permanece muitas vezes fora do olhar das pessoas.

"O espaço público é deixado um bocadinho de lado", afirma. "Os jovens tiram licenciaturas, seguem outros percursos. E qualquer dia estas profissões mais antigas vão desaparecendo".

É precisamente por isso que considera importantes iniciativas como a celebração dos 40 anos das Escolas de Jardinagem e de Calceteiros.

"Fala-se novamente do assunto. Faz-se recordar aquilo que é preciso fazer para que as coisas mudem".

No meio dos jardins que cresceram ao longo das décadas e nos desenhos que continuam gravados na pedra, o legado destas escolas está espalhado por toda a cidade. A questão que permanece é: quem irá cuidar dele nas próximas gerações?

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