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Duane “Keffe D” Davis, antigo líder do gangue South Side Compton Crips, foi condenado pelo homicídio de Tupac Shakur, numa decisão que representa o primeiro desfecho judicial de um caso que intriga os fãs de hip-hop desde 1996.

O júri do tribunal considerou Davis culpado de homicídio com arma letal, pelo seu envolvimento no tiroteio que culminou na morte do rapper norte-americano, em Las Vegas, a 7 de setembro de 1996.

Segundo a BBC, o homem, de 63 anos, “permaneceu impassível” no tribunal de Las Vegas enquanto o veredicto era lido, antes de afirmar que iria recorrer.

Durante o julgamento, o tribunal ouviu uma gravação de uma conversa com a polícia, realizada em 2008, na qual Davis afirma que estava no carro de onde foram disparados os tiros, mas que não foi ele quem disparou.

Os procuradores defenderam que, apesar de Davis não ter disparado a arma, foi ele quem ordenou o ataque e forneceu a arma ao sobrinho, Orlando “Baby Lane” Anderson, que a terá utilizado para iniciar os disparos.

Anderson morreu num tiroteio semelhante em 1998, tendo negado, até então, qualquer envolvimento na morte de Tupac.

Enquanto o veredicto era lido esta segunda-feira, os familiares de Tupac Shakur “davam as mãos, abraçavam-se e choravam”.

Tupac tinha 25 anos quando foi assassinado e encontrava-se no auge da carreira, sendo já considerado um dos rappers mais influentes da sua geração. Ao longo da carreira, vendeu mais de 75 milhões de discos em todo o mundo.

O que aconteceu na noite do homicídio?

Segundo os procuradores, Davis planeou o tiroteio como retaliação depois de o sobrinho se ter envolvido numa luta com Tupac Shakur e o seu grupo em Las Vegas, horas antes do homicídio.

A 7 de setembro de 1996, depois de assistirem a um combate de boxe no MGM Grand, Tupac e o seu grupo envolveram-se numa luta com o sobrinho de Duane Davis, também membro dos South Side Compton Crips, no átrio do casino. O episódio foi captado por câmaras de vigilância.

Cerca de duas horas e meia depois, quando Tupac seguia no banco do passageiro de um BMW conduzido por Suge Knight, um Cadillac branco aproximou-se do carro. Dois homens no banco traseiro dispararam cerca de 13 tiros.

Tupac foi atingido quatro vezes. Knight sofreu apenas um ferimento ligeiro na cabeça. O rapper morreu seis dias depois, no University Medical Center, em Las Vegas.

O homicídio aconteceu num período de intensa rivalidade entre os grupos de hip-hop da "Costa Oeste" e da "Costa Leste" dos Estados Unidos, uma disputa frequentemente associada à rivalidade entre as editoras Death Row Records e Bad Boy Records.

Qual foi a principal evidência?

Uma das principais provas apresentadas no julgamento foram as próprias declarações de Davis. Ao longo dos anos, afirmou repetidamente que estava dentro do Cadillac branco de onde foram disparados os tiros que atingiram Tupac Shakur.

Em 2008, numa declaração à polícia relacionada com a investigação da morte de The Notorious B.I.G., Davis admitiu o seu envolvimento no caso de Tupac. A declaração permaneceu confidencial durante vários anos.

Davis voltou a falar sobre o homicídio no seu livro de memórias, Compton Street Legend, publicado em 2019, e em várias entrevistas e documentários.

As declarações públicas acabaram por ter consequências para o acordo de proteção que Davis tinha estabelecido com as autoridades, que o protegia de acusações criminais relacionadas com o caso.

Durante mais de duas décadas, a investigação avançou lentamente, num contexto marcado pela chamada “lei do silêncio” dos gangues. “Silêncio significa sobrevivência” era, segundo as autoridades, uma das regras que dificultava a obtenção de informações sobre o homicídio.

A situação mudou quando Davis começou a falar publicamente sobre o caso. Entre 1998 e 2008, falou com a polícia e com o FBI e, mais tarde, expôs a sua versão dos acontecimentos no livro de memórias.

Davis apresentou-se como uma das poucas testemunhas oculares ainda vivas e admitiu ter obtido a arma utilizada no ataque e tê-la entregue aos ocupantes do banco traseiro do Cadillac. No entanto, nunca identificou diretamente quem efetuou os disparos.

As declarações acabaram por dar novo impulso à investigação e contribuíram para a sua detenção, em 2023.

Um dos procuradores resumiu a importância do livro de Davis durante o julgamento: “Se nunca tivesse escrito o livro, provavelmente nunca teria sido acusado.”

O tribunal decidiu que as declarações prestadas por Davis à polícia poderiam ser utilizadas como prova no julgamento.

Nos argumentos finais, o procurador Binu Palal pediu ao júri que acreditasse nas declarações de Davis e o considerasse culpado.

Segundo Palal, ao longo dos anos, Davis afirmou repetidamente que era responsável pela morte de Tupac Shakur, em documentários, livros, podcasts e declarações às autoridades.

A defesa de Davis apresentou uma versão diferente. Durante o julgamento, os advogados procuraram convencer os jurados de que as declarações do antigo líder dos South Side Crips eram ficção ou exageros feitos com o objetivo de vender livros e ganhar dinheiro, segundo a BBC.

Nos argumentos finais, o advogado Michael Sanft pediu ao júri que não desse credibilidade às declarações do seu cliente, defendendo que Davis tinha contado mentiras para promover o seu livro.

“Não há provas”, afirmou Michael Sanft perante os jurados.

Poucas horas depois de receberem o processo para deliberação, na segunda-feira, os jurados chegaram a um veredicto: culpado.

Pouco antes de a sessão terminar, a juíza Carli Kierny, do Tribunal Distrital do Condado de Clark, marcou a sentença de Davis para 13 de outubro.

Quem era Tupac Shakur?

Nasceu em Lesane Parish Crooks, em 1971, em Nova Iorque, filho de pais ligados ao partido dos Panteras Negras, tornou-se um dos rappers mais influentes de sempre. Vendeu mais de 75 milhões de discos, foi indicado para seis Grammys e entrou no Rock & Roll Hall of Fame em 2017. Com êxitos como "California Love", "Changes" e "Dear Mama", e assinado pela Death Row Records (fundada por Marion "Suge" Knight), Tupac tornou-se uma figura central da rivalidade entre o hip-hop da costa oeste e da costa leste dos EUA, rivalidade essa que opunha a Death Row à Bad Boy Records de Sean "Diddy" Combs, selo do rapper Notorious B.I.G. (Christopher Wallace), morto seis meses depois, num caso que continua por resolver.

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